Muitos perguntam se diante de um sofrimento mental, como tristeza profunda, ansiedade excessiva, crise de pânico, fobias, entre outros, devem procurar tratamento medicamentoso ou psicoterápico. Para responder a essa pergunta, precisamos pensar em várias coisas.

Primeiro, é importante avaliar se a pessoa tem recursos emocionais para lidar com sofrimentos. Ela cuida bem da sua saúde ou é displicente? É dependente emocionalmente ou não? Gosta da vida ou vive reclamando de tudo? Gosta de tomar remédios ou só usa quando necessário?
Outras perguntas para sabermos se o tratamento é com remédio ou psicoterapia podem ser, por exemplo: qual é o diagnóstico da doença que a pessoa apresenta? Se for depressão, é leve, moderada ou grave? Se sofre de ansiedade exagerada, é uma fobia? São crises de pânico ou ansiedade generalizada? Se o indivíduo tem crise de pânico, elas ocorrem uma vez a cada semestre ou uma a cada semana? A fobia, que é o medo exagerado, é bem enfrentada pela pessoa ou essa fobia está travando e reduzindo a vida social dela, produzindo importante prejuízo nos estudos e no trabalho?
Então, veja que não se pode responder à pergunta se a pessoa deve começar um tratamento para um sofrimento mental com remédio ou com terapia sem obter informações sobre a estrutura emocional dela e esses outros fatores mencionados.
Uma coisa é um paciente dizer: “Doutor, eu vim aqui porque eu sofro de ansiedade, eu prefiro não usar medicamentos, mas aprender a lidar com a minha ansiedade. Mas, se precisar, eu vou usar.” Outra coisa é o paciente dizer: “Doutor, eu sofro de ansiedade e quero me tratar com remédio. Qual remédio é bom para mim?”
No primeiro caso, a pessoa diz que aceita tomar medicamentos para ansiedade, mas demonstra uma disposição de aprender a lidar com as suas dificuldades que motivaram a consulta, e, se possível, sem precisar usar remédios. No segundo caso, a pessoa fala do seu desejo de usar medicação. Ela já vem ao atendimento pensando em como obter, em querer receber uma receita de algum medicamento, sem pensar que pode ser necessário aprender a lidar com sentimentos e pensamentos que causam a dor emocional.

Com essa diferença, vemos que os mesmos remédios, com as mesmas dosagens, produzem resultados diferentes em pessoas diferentes. Por quê? Porque as pessoas com o mesmo sofrimento reagem de forma diferente diante da sua dor emocional e têm uma mentalidade também diferente quanto ao que esperam da orientação médica. Uma quer aprender a lidar com a sua ansiedade excessiva, e a outra quer ficar boa só com remédio. E, às vezes, é difícil convencer uma pessoa de que ela não precisa de medicamentos psiquiátricos e que pode ser suficiente trabalhar consigo mesma do ponto de vista psicológico, com apoio profissional.
Geralmente queremos resultados rápidos para sofrimentos mentais, mas é importante compreender que o problema que levou a pessoa à consulta pode ter levado muitos anos para se instalar na estrutura da personalidade dela. Assim, pode ser difícil ter uma cura rápida. Diante da pergunta “Devo me tratar com medicação ou com terapia psicológica?”, vamos pensar em depressão.
A depressão pode ser leve, moderada ou grave. Na depressão grave, a pessoa pode permanecer na realidade ou ter um tipo de depressão na qual ela surta, ou seja, ela sai da realidade. Isso é chamado de depressão psicótica, que vai precisar de medicamentos; alguns diferentes do que a pessoa com depressão grave, mas que se mantém na realidade, usa. Na depressão grave, em que a pessoa está lúcida, consciente, ligada na realidade, orientada no tempo e no espaço, ela precisa de antidepressivo e apoio psicológico familiar. Na depressão grave psicótica, em que ela sai da realidade, é preciso algum medicamento para alterações psicóticas, como alucinações, delírios, agitação.
Nos casos de depressão leve, não há necessidade de remédios antidepressivos. Basta apoio familiar, desabafo com alguém que sabe ouvir e que incentiva a pessoa deprimida a falar, porque o falar pode aliviar e curar. Não precisa ser com um profissional, mas com alguém que seja atencioso, acolhedor e que sabe ouvir. O tratamento profissional será necessário desde que o deprimido não consiga alívio conversando com amigos e parentes, mesmo eles sendo pessoas atenciosas.
Nos casos de depressão moderada e de moderada à grave, é necessário psicoterapia e alguma medicação antidepressiva se a pessoa não conseguir melhoras só com terapia psicológica. Têm psiquiatras que só trabalham com prescrição de medicamentos e não fazem psicoterapia. Esses, então, encaminham a pessoa para a terapia psicológica com um psicólogo clínico. O psiquiatra orienta quanto à medicação, enquanto o psicólogo faz o tratamento psicoterápico.
Um tipo de terapia que tem bons resultados para a depressão é a chamada TCC (terapia cognitivo-comportamental). Nela, se avaliam os pensamentos do deprimido, que geralmente tem a tendência de cultivar pensamentos pessimistas, de desesperança, de tragédia, de autodesvalorização, de culpas e pensamentos suicidas. Nessa terapia TCC, a pessoa é ajudada a perceber seus pensamentos mais habituais, mais frequentes, que estão em sua consciência, para ver se o que predomina são pensamentos ruins, negativos. Ela será ajudada a questionar esses pensamentos, a ver a raiz deles, a desabafar e a aprender a eliminar os que a fazem piorar, e a cultivar novos e melhores pensamentos. Será ajudada a ver como voltar a ter esperança, cuidar melhor de si, parando de se depreciar, de se desvalorizar, de se culpar.

É comum na depressão se ter esses tipos pensamentos: “Eu acho que essa situação comigo não tem jeito.” “Eu sou um peso para os outros.” “É melhor eu morrer, assim não vou incomodar mais ninguém.” “A vida não faz mais sentido para mim.” Nutrindo esses tipos de pensamentos pessimistas, a depressão se mantém ou piora. Então, na terapia, a pessoa é ajudada sobre como se livrar desses pensamentos, a entender as causas deles, e como pensar positiva e realisticamente para melhorar.
Se o deprimido mantém esses tipos de pensamentos, mesmo usando um antidepressivo, a medicação não conseguirá necessariamente impedir que ele siga com essa maneira de pensar. Por isso, a medicação sozinha pode não ser suficiente para a recuperação. Parece que, no caso de depressão moderada à grave e na grave, a combinação de medicamentos e psicoterapia funciona melhor do que somente um deles, dependendo de como o indivíduo deprimido vai reagir diante da ajuda psicológica. Isso porque os indivíduos mais proativos, em geral na vida, que apresentam bons recursos psicológicos diante de fatores estressores, mais dispostos a enfrentarem a dor emocional, conseguem melhores resultados comparados àqueles que são pessimistas e não cooperam com a sua própria recuperação, esperando demais dos outros e da medicação.
Deprimidos com ideias suicidas graves precisam de vigilância constante, e, se já tentaram o suicídio, precisam de internação hospitalar pelo tempo necessário para interromper as ideias suicidas. Não precisa ser no hospital psiquiátrico, podendo ser em uma unidade de saúde mental no hospital geral. Existem deprimidos que falam em morrer, mas, quando são abordados sobre as suas ideias suicidas, dizem que nunca teriam coragem de se matar. Essas pessoas produzem menos preocupações para a família e para o profissional. Já os deprimidos que falam de suicídio e têm intenção suicida, que até pensam em uma forma de se matar, precisam de acompanhamento e, em alguns casos de internação temporária para proteger a vida deles.
É importante que a pessoa deprimida, seja qual for o seu nível, entenda que a medicação vem em segundo lugar. Em primeiro lugar vem o aprendizado sobre seu sofrimento mental: entender as perdas que produziram a tristeza, ser ajudada a conseguir aceitá-las, viver o luto, e entender se os sintomas depressivos surgiram não necessariamente porque perdeu alguém, seja pela morte, por um divórcio ou separação, mas entender o significado dessa perda na vida dela. Este é o passo mais importante para a recuperação.

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Dr. Cesar Vasconcellos de Souza está trabalhando como psiquiatra e palestrante internacional. É autor de 3 livros, colunista da revista de saúde “Vida e Saúde” há 25 anos, e tem programa regular na TV “Novo Tempo”. Acesse mais conteudos no canal de Youtube.
Excelente explicação. Irei repassar essas informações à quem precisa. Muito obrigada.
Realmente muito importante saber esses detalhes,coisas que nem imaginamos obrigada
Vou compartilhar 😊