Ansiedade é uma coisa muito comum em nossa sociedade. Eu hoje quero comentar sobre algumas origens da ansiedade excessiva ou exagerada.

Primeiro vamos ver o que é ansiedade exagerada. Ansiedade excessiva ou exagerada é um sentimento, uma sensação de angústia, com ou sem o aperto no peito. É uma inquietude, um sentimento de aflição, de falta de serenidade. O sentimento de ansiedade pode ser compreendido como um sinal da presença de pensamentos, sentimentos, desejos inaceitáveis no inconsciente da pessoa.
Quando pensamos, ou quando pensamentos ou sentimentos e desejos difíceis de serem aceitos por nós querem vierem à tona da consciência, a nossa mente cria uma defesa para evitar isso, para fugir de pensar na dor emocional. Esta defesa pode ser muita coisa. Pode ser, por exemplo, um sintoma psicossomático em que surge alguma alteração no corpo.
Pode ser uma obsessão por qualquer coisa, dinheiro, fama, sexo, compra, drogas, romance. Mas quando a mente falha em construir um mecanismo de defesa para manter esses pensamentos, sentimentos e desejos inaceitáveis fora da nossa consciência, a ansiedade piora. E ela pode aparecer como ansiedade mesmo com aflição, ou como uma fobia, que é o medo exagerado, ou ainda pode aparecer como uma crise de pânico, além de outras manifestações.
Então, uma maneira da gente olhar a ansiedade excessiva, é que ela pode ser uma manifestação de conflito que existe, porque por um lado a sua mente quer colocar para o consciente coisas para você pensar, e por outro lado ocorre uma repressão dessa percepção.

A ansiedade surge porque você não deixa que alguma verdade apareça na sua mente consciente. A ansiedade desagradável vem porque você não está podendo nesse momento olhar para as causas básicas dos seus conflitos. Você pode crer que sua ansiedade exagerada está ligada a um medo consciente de algo. Por exemplo, medo exagerado de um inseto.
Mas esse medo mascara ou disfarça uma preocupação mais profunda ou conflito mais complexo. Muitas pessoas sofrem de ansiedade sem ter a menor ideia do porque estão ansiosas. Não é uma questão de inteligência, mas de possibilidade emocional de poder ver ou não ver a causa da ansiedade. Conseguimos a cura emocional não quando queremos, mas quando podemos, quando estamos prontos.
A tarefa da psicoterapia na abordagem analítica, também chamada de psicoterapia psicodinâmica ou psicanalítica, é justamente ajudar a pessoa a compreender as causas profundas de sua ansiedade excessiva ou de outro sofrimento. Psicoterapia é o trabalho feito com psicólogo clínico, visando o alívio, a melhora ou cura de algum sofrimento emocional ou psicológico.
Algumas pessoas sofrem muito com ansiedade, porque elas não conseguem viver de acordo com um padrão interno de comportamento moral perfeito. Quando uma criança vive numa família em que os pais são rígidos e exigentes demais e que colocam um padrão de comportamento super perfeito, a criança não consegue atingir esse padrão, não porque ela é má, burra ou rebelde, mas porque o alvo exagerado é perfeccionista.

E devido ao medo de perder o amor ou aprovação dos pais, a criança se sente ansiosa e pode se exigir o que não é justo para ela. E as crianças podem experimentar uma ansiedade também dolorida, chamada de ansiedade de separação, na qual existe o medo não só de perder o amor dos pais, mas também perder os pais pelo divórcio, pelo afastamento ou pela morte.
Outro tipo de ansiedade sofrida é a chamada ansiedade de desintegração, que é quando a pessoa tem medo de perder a sua identidade, o seu selfie, o seu eu. Isso pode ocorrer em várias circunstâncias, como por exemplo, viver se anulando para tentar agradar os outros e acabar ficando confuso sobre quem é você ou o que você quer e o que você não quer.
Muitos pensam que ao passar a infância durante a qual houve bastante sofrimento na família, que gerou muita ansiedade na criança, ela não terá mais problema com ansiedade. Mas não é verdade. Os conflitos do passado que produziram ansiedade serão resolvidos quando se elaborar e trabalhar esses conflitos. Cada pessoa pode ter uma mistura de ansiedade, seja de separação, de desintegração ou outra.
Parece que algumas pessoas nascem mais propensas para ter ansiedade, e chamamos isso de ansiedade traço. Talvez algum fator genético contribua para isso. O cientista Lesch e colaboradores, constataram que as pessoas com uma versão mais curta do gene transportador de serotonina podem ter uma maior ansiedade ligada a um temperamento neurótico do que aquelas que tem uma versão mais longa desse gene.1)Lesch, K.P., Bengel, D., Heils, A., Sabol, S.Z., Greenberg, B.D., Petri, S., Benjamin, J., Müller, C.R., Hamer, D.H., & Murphy, D.L. (1996). Association of anxiety-related traits with a … Continue reading
Por outro lado, o professor Gabbard, professor de psiquiatria da Universidade Estadual de Nova York e da Faculdade de Medicina de Baylor, no Texas, diz assim:
Os indivíduos com maior ansiedade podem estar mais bem equipados para sobreviver aos perigos em seu ambiente do que aqueles que são menos preocupados.2)GABBARD, G. O. Psiquiatria psicodinâmica na prática clínica. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016. 652 p. ISBN 9788582712795
O Dr. Garbbard comenta que num estudo feito com Gêmeos, que teve a finalidade de averiguar fatores de risco genético e ambientais para transtorno de ansiedade, foi verificado que os genes favoreciam dois grandes grupos de sofrimento emocional: Um relacionado à crise de pânico e ansiedade generalizada, e o outro às fobias específicas.
As pessoas podem brincar com a ansiedade dos outros, mas estudos científicos têm mostrado que a ansiedade que persiste e não dá alívio para a pessoa é um fator de risco para se pensar em suicídio e tentar se matar. Por isso, a pessoa com muito sofrimento ligado a uma ansiedade excessiva precisa de um atendimento profissional.

É importante entender que a ansiedade pode ser adaptativa ou desadaptativa. Ou seja, tem pessoas com ansiedade que aprendem a lidar com ela e se tornam muito criativas. Por isso, não devemos pensar que para qualquer tipo de ansiedade, a pessoa tem que tomar uma medicação para ver se ela diminui. Alguma ansiedade serve para uma função adaptativa para avisar o indivíduo sobre uma situação perigosa que pode então ser manejada de modo a evitar o perigo.
Como eu já comentei aqui, a ansiedade exagerada, é como a luz vermelha no painel do seu carro, que avisa que você precisa fazer algo para consertar o defeito que a fez acender. Mas se você quebrar a lâmpada da luz vermelha com um martelinho, achando que tudo ficará bem, isso poderá ser um perigo, porque o problema que fez com que a luz vermelha acendesse continuará.
Ou seja, se você tem conflitos que precisam ser resolvidos nos relacionamentos com as pessoas e com você mesmo, não resolverá tomar medicamentos e não fazer mais nada. Os remédios, por melhores que sejam, mesmo indicados para o uso temporário, não eliminarão a necessidade de você buscar soluções para seus sofrimentos emocionais que produzem a ansiedade excessiva.
A crise de pânico dura poucos minutos com sintomas como sensação de falta de ar, aflição muito intensa, tontura, taquicardia ou aceleração dos batimentos cardíacos, tremores, sudorese, sensação de que vai perder o juízo ou de que vai morrer, e geralmente com a sensação de que a pessoa está tendo ataque cardíaco.
A pessoa que tem tido crise de pânico com sensação forte e frequente, que parece que vai morrer de infarto ou ataque cardíaco, deve sim ter uma consulta com um cardiologista para verificar se existe mesmo alguma doença cardiovascular. Se na consulta com o especialista em doenças do coração for verificado que não existe doença física no coração, isso será um fator importante para ajudar a combater os pensamentos catastróficos que favorecem a crise de pânico.
Muitas pessoas que têm a crise de pânico também apresentam o que chamamos de agorafobia, que literalmente significa medo de espaços abertos, mas que é um medo excessivo de estar no local, ou em uma situação em que seja difícil sair, ou fugir, ou medo de estar numa situação muito embaraçosa. Pessoas com crise de pânico podem ter muito medo de entrar no elevador, por exemplo, ou pode entrar em crise de ansiedade se estiverem num engarrafamento, ou num local fechado, como teatro ou cinema.
Pelo fato das crises de pânico poderem ocorrer repetidas vezes, muitos acabam desenvolvendo um tipo de ansiedade antecipatória; ou seja, ficam extremamente preocupados sobre quando e em que local ocorrerá a próxima crise de pânico. Esse medo faz com que a pessoa que sofre da crise de pânico acabe evitando sair de casa, ou só sai se alguém for junto e mesmo assim ainda com medo de lugares fechados e aglomerações.
Pode ser que as pessoas que desenvolvem crise de pânico tenham o que nós chamamos de ansiedade traço, que é diferente de ansiedade estado. Quando a pessoa tem ansiedade estado, ela fica mais ansiosa do que o normal só por um tempo. É algo limitado. Por exemplo, quando ela tem uma entrevista para um novo emprego, ou quando ela vai fazer uma prova prática para tirar a carteira de motorista, ou quando ela vai prestar um exame de vestibular.
Depois que passa o evento, que produz a tensão, a ansiedade diminui e volta ao normal. Isso na pessoa com ansiedade estado. Agora, na pessoa com ansiedade traço, o nome já diz; ela tem um traço de ansiedade, talvez desde pequena, e mediante situações emocionalmente traumáticas para ela ocorridas ao longo da vida, junta a tendência para ansiedade com ansiedade produzida pelos traumas, podendo surgir então as crises de pânico.
Vários indivíduos que apresentam crise de pânico podem viver situações cheias de fatores estressores, como o fato de pessoas ao redor, na família ou no trabalho colocarem expectativas muito altas para elas resolverem alguma situação. Por exemplo, um chefe no trabalho pode exigir da pessoa uma determinada tarefa, ou que ela tenha que atingir certos alvos de produção, que para ela é demais. E isso pode aumentar muita a ansiedade e surgir a crise de pânico.
É comum na história de pessoas com crise de pânico encontrarmos o fato de que ao longo da infância tenham ocorrido situações nas quais o apego delas em relação ao pai ou à mãe ou outra figura importante para ela foi ameaçado. Ou seja, elas sentiram que o apego poderia ser rompido com uma dessas pessoas importantes afetivamente para ela.
E outros indivíduos também com pânico tiveram uma sensação de que seus pais eram muito difíceis, críticos, muito exigentes, explosivos, criando muita ansiedade no relacionamento com eles. Também algumas mães que são muito ansiosas e que não conseguem acalmar o seu bebê, porque elas mesmas não conseguem se acalmar, favorecem a ansiedade na criança que mais tarde pode contribuir para aparecer crises de pânico.

Outros indivíduos com pânico tiveram um relacionamento com seus pais em que não se sentiam acolhidos e havia dificuldade de expressar a zanga, a raiva, porque eram logo podados ou impedidos pelos pais de falar das suas frustrações.
O Dr.Gabbard comenta que estudos constaram que os pacientes com transtorno de pânico apresentavam maior número de eventos estressantes na vida, particularmente perdas nos meses anteriores ao início do transtorno de pânico, quando comparados à pessoas sem tantos traumas. Ele cita uma pesquisa científica feita com 118 pares de gêmeas, nas quais o transtorno de pânico foi muito fortemente ligado à separação ou à morte dos pais.Também muita gente com crise de pânico teve no passado a separação precoce da mãe.
Existe uma teoria de que pessoas com crise de pânico podem ter uma fragilidade neurofisiológica, ou seja, algo no cérebro delas que não funciona bem, e isso facilita ter as crises quando ocorrem eventos estressores na vida delas. Um pesquisador, Kagan e colaboradores – uma equipe de cientistas – num trabalho científico chamado Bases Biológicas para a Timidez na Infância, verificaram que algumas crianças já nascem com uma inibição de temperamento. Isso faz com que elas se assustem facilmente com qualquer coisa que seja estranha ao seu ambiente.3)Kagan, J., Reznick, J. S., & Snidman, N. (1988). Biological bases of childhood shyness. Science, 240(4849), 167-171.
Para vencerem o medo, a tendência é se apegarem demais a seus pais. Mas como eles não são disponíveis o tempo todo, pode surgir raiva deles e isso pode gerar conflito entre precisar do apoio dos pais e raiva deles, o que pode produzir crise de pânico mais tarde.
Por isso, é comum em pessoas com crise de pânico haver muito medo de separação de pessoas afetivamente conectadas com elas e em geral, ocorre uma criação de vínculo afetivo muito exagerado com essas pessoas. Assim, a ideia de separação dessas figuras cria terror nesses indivíduos que acabam tendo pânico. Essas pessoas ainda não aprenderam bem como viver com independência emocional saudável.
Muitas pessoas com crise de pânico foram vítimas de abuso sexual na infância. E o Dr. Gabbard, lá da Universidade Baylor, explica que o trauma infantil interfere no apego da criança em relação aos pais; que o abuso sexual poderia explicar algumas das dificuldades que as pessoas com transtorno do pânico têm em se sentirem seguras com as pessoas significativas de suas vidas.
Mas claro, isso não significa que todas as pessoas que têm crise de pânico foram abusadas sexualmente na infância. Uma maioria não foi. Se você sofre de crise de pânico ou se você conhece alguém com esse sofrimento mental, o tratamento deve ser feito com médico psiquiatra que poderá prescrever temporariamente alguma medicação para alívio da ansiedade excessiva, e será necessário procurar um tratamento de psicoterapia com psicólogo, para aprender sobre as causas desse problema de saúde e ser ajudado a desenvolver estratégias de enfrentamento da ansiedade excessiva.
Aqui deixo o meu conselho: não tenha medo de procurar ajuda profissional e não fique adiando isso para que a sua qualidade de vida possa melhorar. Pessoas sofrendo com ansiedade excessiva podem melhorar, podem aprender a lidar com isso de uma maneira saudável e podem parar de ter crise de pânico ou outra manifestação de ansiedade exagerada.

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Dr. Cesar Vasconcellos de Souza está trabalhando como psiquiatra e palestrante internacional. É autor de 3 livros, colunista da revista de saúde “Vida e Saúde” há 25 anos, e tem programa regular na TV “Novo Tempo”. Acesse mais conteudos no canal de Youtube.
Referências
| ↑1 | Lesch, K.P., Bengel, D., Heils, A., Sabol, S.Z., Greenberg, B.D., Petri, S., Benjamin, J., Müller, C.R., Hamer, D.H., & Murphy, D.L. (1996). Association of anxiety-related traits with a polymorphism in the serotonin transporter gene regulatory region. Science, 274(5292), 1527-1531. |
|---|---|
| ↑2 | GABBARD, G. O. Psiquiatria psicodinâmica na prática clínica. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016. 652 p. ISBN 9788582712795 |
| ↑3 | Kagan, J., Reznick, J. S., & Snidman, N. (1988). Biological bases of childhood shyness. Science, 240(4849), 167-171. |
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