Anos atrás, eu li um texto numa revista científica sobre a ambiguidade feminina, escrito por um ginecologista do Rio de Janeiro, Dr. Nelson Socou, com o seguinte título: “Um estudo sobre a ambiguidade na mulher.” Vamos pensar sobre isso.

O Dr. Nelson explica, em seu artigo, que apesar de ser um tema difícil de ser explorado, a observação prática da vida, do comportamento e do discurso das mulheres, a vivência clínica dele como ginecologista, a literatura em geral, também as artes e a mitologia oferecem muita informação sobre esse traço da constituição feminina.
Na verdade, homens e mulheres são ambíguos; entretanto, as mulheres vão bem mais além nesta característica, além de terem algo meio que oculto no seu ser. Mas vamos definir primeiro o que significa “ambiguidade”. Ambiguidade significa qualidade daquilo que possui, ou pode possuir diferentes sentidos; o que é incerto ou indefinido; o que pode ter mais do que um significado; obscuridade de sentido; ambivalência; paradoxo.
Uma moça reclamava do namorado que não tomava a iniciativa de convidá-la para um lanche em algum lugar. Geralmente ele perguntava a ela onde ela preferia ir. A queixa da moça era que ela gostaria que ele dissesse com firmeza, tipo assim: “Vamos tomar um lanche naquela lanchonete X lá.” Mas o que pode acontecer quando um homem age assim com uma mulher? Ela pode achar que ele quer dominá-la e não dar chance a ela de escolher. Se ele escolhe, ela pode se sentir controlada por ele; e se ele a deixa escolher, ela pode achar que ele não tem iniciativa. Isso é apenas um pequeno exemplo de ambiguidade feminina.
Eu imagino que muitas de vocês mulheres, podem achar que a minha análise desse assunto, sobre ambiguidade, é machista ou com falhas. Eu acho que tem falhas sim, porque só é possível entender perfeitamente coisas assim quando somos do mesmo sexo, porque a mente masculina funciona diferente da feminina em vários aspectos. Não dá para igualar a visão masculina e a feminina em muitos pontos da vida.
Freud tem uma frase conhecida sobre a ambiguidade da mulher, quando ele disse assim: “O que desejam as mulheres, afinal?” Podemos compreender que a mulher tem oscilações hormonais frequentes devido ao ciclo menstrual; tem uma vida emocional com mais forte carga de sentimento do que os homens. Não é negativo ou inferior, mas é algo da biologia feminina.
Uma das ambiguidades femininas tem que ver com desejar e não desejar a gravidez. A mulher fica num conflito, às vezes, entre manter seu corpo com características estéticas de provocar desejo no homem, e por outro lado desejar a maternidade. Ainda que nas últimas décadas os homens tenham gastado tempo e dinheiro com a busca de um corpo atraente, parece ser mais frequente na mulher um certo grau de narcisismo. Por outro lado, para a mulher viver a maternidade, ela tem que abrir mão, pelo menos temporariamente, da permanência de um corpo escultural, devido às modificações próprias da gravidez. Gravidez e parto envolvem considerável sacrifício para o corpo da mulher, porque após o nascimento do bebê nem sempre o corpo volta ao estado anterior.

Outro fato que contribui para a ambiguidade feminina é o processo de envelhecimento, que nas mulheres é mais intenso e rápido do que nos homens. Daí vem o medo que muitas mulheres têm de envelhecer e perderem características físicas agradáveis aos olhos.
A inconsistência — ou a inconstância, melhor dizendo — de atitudes e comportamentos, e a relativa instabilidade emocional feminina, são ligadas a aspectos psicossexuais e hormonais. Do ponto de vista psicológico, existe na mulher um forte componente autoerótico e de amor-próprio em relação ao seu corpo, e até certo ponto ela é um objeto sexual de si mesma. Uma mulher disse certa vez que gostava de usar roupas sensuais não para se mostrar, mas para o prazer dela mesma.
Quando pensamos no significado do desejo afetivo do homem para com a mulher e da mulher para com o homem, existe uma diferença imensa nesse ponto também. O homem deseja a mulher, e a mulher deseja o desejo do homem por ela. Para ela isso é tudo, e para ele pode ser demais. Inicialmente, o homem se sente atraído pelo corpo da mulher, e a mulher se sente inicialmente atraída por certos traços da personalidade masculina.
Antigamente se dizia que o homem dava amor para obter sexo, e as mulheres davam sexo para obter amor. De um tempo para cá, a coisa piorou, porque a mulher dá sexo pelo sexo em si, ou seja, tem ocorrido uma desvalorização, um rebaixamento, uma superficialização das relações afetivas entre o homem e a mulher. Que pena, e que triste, né?
Vejamos o caso de infidelidade conjugal: quando a mulher trai o homem e se envolve com outra pessoa, o que mais angústia o marido é saber se ela teve sexo ou não com o rival. Mas no caso da mulher que foi traída pelo esposo, o que ela mais quer saber, em geral, é se ele gostou dessa outra mulher, se teve algum sentimento por ela. Por quê? Porque sexo pode ser alguma coisa passageira, superficial, só carnal; mas sentimento já envolve alguma coisa mais profunda.
As mulheres têm mais facilidade em saber o que se passa na mente de um homem em termos de carinho, de desejo, de fidelidade ou infidelidade, porque, em geral, os homens são mais transparentes para elas. Porém, o que acontece na mente feminina é quase impenetrável para a maioria dos homens, e elas podem ser incompreensíveis para elas mesmas.
Quando analisamos o discurso ou a fala das mulheres, vemos que parece não haver lógica — o que não tem nada a ver com a inteligência. Parece ter um tipo diferente, um código diferente do masculino: o que elas dizem pode nem sempre ser o que nós ouvimos. Por exemplo: a mulher pode abrir o guarda-roupas, que tem um monte de roupa ali, variadas, e dizer para o seu marido: “Ah, eu não tenho nada para vestir agora, pra gente sair.” Mas ali tem 34 vestidos, 42 saias ou 44 blusas, 27 pares de sapato, entre outras roupas. Então, a lógica feminina é diferente da masculina.

As mulheres possuem o que se chama de intuição. Quando os homens tentam mentir para elas, ou dissimular a verdade, elas percebem isso com mais facilidade do que os homens — a não ser que seja uma mulher muito ingênua ou pouco perceptiva. A intuição parece ser melhor desenvolvida nas mulheres. Intuição tem a ver com perceber coisas através do inconsciente.
A linguagem feminina, muitas vezes, tem uma dissimulação, um jogo, uma estratégia; e isso pode ocorrer meio que inconscientemente. Em alguns casos, é algo bem pensado e maldoso, mas na maioria das vezes não.
Um desafio para o bom convívio entre homens e mulheres tem a ver com cada um procurar o entendimento de como o outro funciona. Nossa tendência é querer que nos entendam e nos tratem bem, independentemente de entendermos ou tratarmos bem os outros.
Jesus tem um comentário importante nesse contexto. Ele ordenou aos seus seguidores, dizendo: “Tudo, portanto, quanto vocês desejam que os outros façam com vocês, façam vocês também a eles. Isso é a Lei e os Profetas.” (Mateus 7:12).
Mas cabe a seguinte pergunta: quem deseja isso? Quem deseja realmente entender o outro? Ou será que o que predomina é o egoísmo, e o desejo de ser desejada — e ponto final — sem precisar elaborar o conhecimento de nós mesmos, o conhecimento do outro e fazer pelo outro o que queremos que façam com a gente? E eu repito: essa diferença de funcionamento da mente feminina com a masculina não tem nada a ver com a inteligência. Mulheres brilhantes e inteligentes têm essa diferença em relação a nós, homens. Vamos nos comprometer a aprender a enxergar além de nossa própria perspectiva, buscando a verdadeira compreensão e praticando o respeito que constrói pontes entre nossas mentes maravilhosamente diferentes.

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