Hoje, vamos refletir um pouco sobre comportamento antissocial. Vamos pensar, então, na palavra “psicopatia”. O termo “psicopata” é mais antigo; realmente, essa nomenclatura mudou. Hoje, falamos de pessoas com transtorno de personalidade antissocial, mas eu vou usar o nome “psicopata” aqui porque acho que fica mais popular.

Psicopatas têm grave dificuldade de sentir empatia: não percebem seus próprios sentimentos nem os dos outros. São mentirosos, manipulam sem culpa e não sentem remorso pelas atitudes violentas que praticaram. Não desejam mudar de comportamento e transgridem precocemente na vida, sendo mais violentos e com mais frequência do que as outras pessoas.
Além disso, os psicopatas têm emoções superficiais, não se incomodam em abusar das pessoas e não são leais. Rompem facilmente relações de amizade nas quais havia manipulação, e não o afeto genuíno. Eles têm dificuldade em fazer um juízo correto sobre valores morais e éticos e podem entrar no mundo do crime sem dificuldade, envolvendo-se em falsificações, furtos, assaltos e até assassinatos.
Não são essas características – ou pelo menos algumas delas – semelhantes às que vemos em algumas pessoas da liderança em nosso país, que cinicamente se dizem inocentes e continuam corruptas?

Em um estudo científico, os neurocientistas Kiehl e Buckholtz afirmam que os psicopatas reincidem na criminalidade de quatro a oito vezes mais do que os não psicopatas.1)Kiel & Buckholtz. Mente Cérebro, ano XX, n. 254, p. 34.
Um psicopata geralmente é uma pessoa bem-aparentada; não é um indivíduo monstruoso, como podemos imaginar. Não tem uma aparência esquisita que dá medo. Pelo contrário, eles são envolventes. Os neurocientistas que citei verificaram que jovens psicólogos, ainda inexperientes, que entrevistavam presidiários psicopatas, não percebiam a lesão de caráter desses presos e achavam que poderiam ter sido presos por engano. Esses estudantes de pós-graduação pensavam assim pelo menos até lerem as fichas dos presidiários, onde constavam crimes como exploração de mulheres, tráfico de entorpecentes, fraudes, furtos e outros delitos.
Muitos psicopatas têm uma aparência falsa de normalidade. Em geral, não apresentam sintomas psicóticos, como alucinações e delírios, nem tristeza ou ansiedade alta. Também não ficam desorientados no tempo e no espaço, nem apresentam confusão sobre sua identidade – características comuns em algumas doenças mentais. Socialmente, parecem normais, podem ser estudantes ou profissionais de diversas áreas, e em geral são bem inteligentes.
Estudos com eletroencefalografia compararam pessoas normais e psicopatas. Os resultados mostraram que ondas cerebrais incomuns surgiam nos exames dos psicopatas e permaneciam praticamente iguais quando expostos a palavras com forte significado emocional. Já nas pessoas normais, as ondas cerebrais mudavam drasticamente ao lerem uma palavra com forte conteúdo afetivo.
Mas será que a psicopatia é adquirida ou a pessoa já nasce com ela? Neurocientistas dizem que ambos os fatores influenciam. A genética pode explicar até 50% ou 60% dessa condição; o resto é aprendido. Alguns psicopatas são influenciados por uma infância complicada, mas outros são “ovelhas negras” em famílias estáveis.
Vale a pena investir no tratamento dessas pessoas o mais precocemente possível, até do ponto de vista financeiro. Você sabia que, nos Estados Unidos, para cada US$10.000 usados no tratamento dessas pessoas, economizam-se US$70.000 que seriam gastos para manter um indivíduo na cadeia?

Uma pessoa que apresenta psicopatia, ou seja, transtorno de personalidade antissocial, precisa demonstrar um padrão de desrespeito e violação aos direitos dos outros desde a adolescência, com pelo menos três dos nove critérios a seguir:
- Fracasso em se conformar às normas sociais relacionadas a comportamentos éticos, praticando repetidamente atos que constituem motivo de reprovação social ou detenção (como crimes).
- Impulsividade predominante ou incapacidade de seguir planos traçados para o futuro.
- Irritabilidade e agressividade, com histórico constante de lutas corporais ou agressões verbais violentas.
- Desrespeito irresponsável pela segurança própria ou de outras pessoas.
- Irresponsabilidade consistente, com fracasso repetido em manter um comportamento adequado no trabalho ou em honrar obrigações financeiras.
- Ausência de remorso, demonstrando indiferença ou racionalização por ter manipulado, ferido, maltratado ou roubado outra pessoa.
- Tendência a enganar, mentindo compulsivamente, distorcendo fatos ou ludibriando os outros para obter credibilidade, vantagens pessoais ou prazer – algo que podemos associar a corruptos, não é mesmo?
- Incapacidade de conviver com animais domésticos ou de demonstrar apreço pelos sentimentos deles.
- Alteração no convívio familiar, marcada pelo desrespeito e desapreço.
Para que uma pessoa seja diagnosticada com transtorno antissocial, é necessário haver evidências de transtorno de conduta com início antes dos 15 anos. Além disso, essa condição não pode ser explicada por esquizofrenia ou uma crise maníaca da doença bipolar.
É difícil tratar psicopatas porque o caráter deles está muito comprometido, além das possíveis alterações cerebrais. No tratamento, pode-se tentar o uso de medicação, a psicoeducação para ensinar a lidar com os problemas, terapia psicoterápica e o treinamento de habilidades sociais. O apoio e o aconselhamento espiritual também são instrumentos úteis.

Um grande desafio é que, geralmente, esses indivíduos não se interessam pelo tratamento para suas alterações de caráter. O melhor é intervir cedo, ainda na infância, antes mesmo da escola, caso surjam sinais importantes de dificuldades ou alterações na interação da criança com a família e nas relações sociais.
Para prevenir esse grave problema de conduta, deve-se ensinar à criança boas habilidades sociais, incentivá-la a desenvolver pensamentos coerentes e não agressivos, além de estimular a expressão de sentimentos como compaixão, perdão, arrependimento, carinho e respeito. Também é essencial ensinar limites. Fique atento por aqueles sinais, porque vale a pena entrar no tratamento cedo na vida.

Fique sempre atualizado
Cadastre-se para receber nosso boletim informativo e mantenha-se sempre informado sobre as novidades e dicas para sua saúde.

Dr. Cesar Vasconcellos de Souza está trabalhando como psiquiatra e palestrante internacional. É autor de 3 livros, colunista da revista de saúde “Vida e Saúde” há 25 anos, e tem programa regular na TV “Novo Tempo”. Acesse mais conteudos no canal de Youtube.
Referências
| ↑1 | Kiel & Buckholtz. Mente Cérebro, ano XX, n. 254, p. 34. |
|---|
Deixe um comentário