Vamos pensar sobre algumas atitudes no casamento, praticadas pelo esposo ou pela esposa, que favorecem o surgimento da ideia de separação na mente de cada um, pela dor e frustração que tais atitudes produzem — especialmente quando se tornam uma rotina.

Eva Van Prooyen é psicoterapeuta, educadora e especialista em relacionamentos, atuando em Santa Bárbara, na Califórnia. Em um artigo interessante, ela comenta que o desprezo é o mais destrutivo comportamento num casamento, porque transmite a ideia de: “Eu sou melhor do que você. Eu não te respeito.”1)Eva Van Prooyen. This One Thing is the Biggest Predictor of Divorce. Gottman Institute, August 25, 2017
Diz ela que o desprezo é tão destrutivo que casais que desprezam uns aos outros são mais propensos a sofrer de doenças infecciosas do que casais que não fazem isso. Ela explica que o Dr. John Gottman — um terapeuta de casais e de família, e profissional de longa experiência — descreveu os chamados Quatro Cavaleiros do Apocalipse, que são preditores de divórcio. Eles são, além do desprezo: a crítica, a defensiva e a parede de pedra.2)Ellie Lisitsa. The Four Horsemen: Criticism, Contempt, Defensiveness, and Stonewalling. Gottman Institute, October 15, 2024
Vamos ver isso agora. Viver criticando seu cônjuge é diferente de mencionar uma crítica no sentido de fazer uma reclamação. Diz Ellie Lisitsa, autora de vários artigos sobre vida conjugal: quando você faz uma reclamação ao seu marido ou à sua esposa, isso é algo pontual, específico sendo diferente de atacar a pessoa.3)Ellie Lisitsa. The Four Horsemen: Criticism, Contempt, Defensiveness, and Stonewalling. Gottman Institute, October 15, 2024
Veja um exemplo de uma reclamação normal e de uma crítica destrutiva:
Você diz ao seu cônjuge: “Fiquei preocupado por você não ter me ligado. Nós havíamos combinado de um avisar o outro sobre o horário da reunião.” Isso é uma reclamação.
Agora veja um exemplo de crítica destrutiva:
“Você nunca pensa em mim! Não acredito que você se lembre de mim. Você é um egoísta!” Percebe como, nesse caso, se ataca o outro?
O problema da crítica é que, quando ela se repete, atacando a outra pessoa, isso faz a vítima se sentir agredida, ferida, rejeitada, diminuída e conduz ao desprezo. Procure trocar a crítica destrutiva por comentários sinceros, ponderados, equilibrados, visando resolver o problema, e não atacar o outro.
Quando o desprezo existe num relacionamento, significa que quem despreza age com maldade, porque desrespeita o outro, ridiculariza, age com sarcasmo e isso fere. O desprezo é um dos fatores mais indicadores da possibilidade de um divórcio.
No lugar do desprezo, passe a pensar no que você admira na pessoa e aja com bondade para com ela. Conversem sobre coisas boas que viveram no passado. Comentem sobre como se apaixonaram um pelo outro.

A terapeuta de casais Eva Van Prooyen explica, dizendo que, apesar de toda a dor e sentimentos negativos que se acumularam ao longo dos anos, ainda há uma brasa de amizade. A chave é colocar essa brasa de volta às chamas, e a melhor maneira de fazer isso é criando uma cultura de apreciação e respeito no relacionamento.
Além do desprezo e da crítica, um outro comportamento que pode levar ao divórcio é a defensiva que, geralmente, é uma resposta ou uma reação às críticas. Ficar na defensiva é usar desculpas pelos comportamentos errados que praticamos, quando queremos justificá-los. Isso passa a ideia, para o outro, de que as preocupações dele ou dela não serão levadas a sério e de que não assumiremos a responsabilidade pelos nossos erros.
Veja esse exemplo da terapeuta Ellie:
Um cônjuge pergunta para o outro: “Você ligou para o Paulo e para a Maria para informá-los que não vamos sair com eles hoje à noite, como você disse que faria?”
A resposta defensiva seria assim: “Eu estava muito ocupado. Você sabe quão ocupada a minha agenda estava! Por que você não fez isso?” Veja que esse indivíduo não apenas responde defensivamente, mas inverte a culpa, na tentativa de jogá-la sobre o outro.
Em vez disso, uma resposta não defensiva deve expressar a aceitação de responsabilidade, admissão de culpa e compreensão da perspectiva do seu parceiro. O cônjuge que não cumpriu o acordo poderia ter dito: “Puxa, desculpe. Realmente, eu me esqueci. Eu devia ter pedido a você para fazer isso. Eu estava tão ocupado… a culpa é minha. Eu vou ligar para eles agora mesmo.”
Outro comportamento que prejudica o relacionamento e pode também contribuir para uma ideia de separação é o que chamamos de parede de pedra. Isso acontece quando o ouvinte se retira do diálogo ou do contato, e simplesmente para de responder ao companheiro ou à companheira. Em vez de enfrentar os problemas com seu parceiro, algumas pessoas podem fazer manobras evasivas, como recuar, se fechar, emburrar e ficar sem falar por vários dias.
Quando o marido ou a esposa vive criticando, desprezando e agindo na defensiva, isso conduz à construção de um muro de proteção que é a parede de pedra no relacionamento. Existe um afastamento. Isso também contribui para uma possível separação.

Se um dia você estiver discutindo um assunto difícil com seu cônjuge e o sangue esquentar, em vez de se isolar, construindo um muro de pedra, você deve dar uma pausa e explicar o que está sentindo. Você pode dizer assim: “Olha, vamos dar uma pausa nessa discussão, porque a raiva está muito grande em mim. Me dá um tempinho, deixa minha cabeça esfriar, e depois, daqui a uns minutos, voltamos ao assunto.”
Em seguida, saia do ambiente com educação e se envolva numa tarefa que distraia sua mente do tema difícil que estava sendo conversado. Volte ao diálogo quando sentir que se acalmou.
Então, identifique esses quatro comportamentos que destroem o relacionamento:
a crítica, o desprezo, a defensiva e a parede de pedra (o isolamento).
Admita que você pode estar praticando um desses comportamentos ou mais de um, e comece a trabalhar para mudar isso. Independentemente de seu esposo ou sua esposa estar fazendo o mesmo, lute para agir de forma diferente e melhor, para fazer a sua parte na tentativa de manter o casamento.
Pare de tratar o outro dando bronca, como se ele ou ela fosse uma criança. Evite palavrões. Não fique zombando dele ou dela, usando atitude sarcástica ou de gozação. Pense que essa pessoa que está aí ao seu lado merece respeito — mesmo sendo imperfeita, como você também o é.
Quando o desprezo começar a pesar sobre seu relacionamento, você tende a esquecer completamente as qualidades positivas do seu parceiro — pelo menos enquanto se sente chateado. Você não consegue se lembrar de uma única qualidade do outro, não é mesmo? Especialmente quando está cheio de raiva.
Em resumo, não fique atacando o seu cônjuge, sempre apontando os seus defeitos.
Não o despreze, porque isso corrói o vínculo e acaba rompendo a conexão de intimidade afetiva do casal.
Não é possível manter um relacionamento próximo quando um dos dois vive desrespeitando o outro com palavras de crítica, xingamentos, ironias e sarcasmos. A pessoa com quem você escolheu viver uma vida a dois tem valor como indivíduo e merece respeito.
Tem gente que pensa que manter respeito pode parecer uma relação de pai e filha ou de mãe e filho. Mas não é isso! Respeitar seu cônjuge não é se posicionar para com ele como um pai ou uma mãe — mas é reconhecer a dignidade da pessoa humana que o outro tem, do mesmo jeito que você.

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Dr. Cesar Vasconcellos de Souza está trabalhando como psiquiatra e palestrante internacional. É autor de 3 livros, colunista da revista de saúde “Vida e Saúde” há 25 anos, e tem programa regular na TV “Novo Tempo”. Acesse mais conteudos no canal de Youtube.
Referências
| ↑1 | Eva Van Prooyen. This One Thing is the Biggest Predictor of Divorce. Gottman Institute, August 25, 2017 |
|---|---|
| ↑2, ↑3 | Ellie Lisitsa. The Four Horsemen: Criticism, Contempt, Defensiveness, and Stonewalling. Gottman Institute, October 15, 2024 |
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